Já tem uns dias que eu planejo te escrever, aí eu mudo de ideia porque, honestamente, que diferença faz?
Mas eu tenho tanto dentro de mim que não é meu, é seu, e o único caminho que tenho para esvaziar meu coração é esse: escrevendo...

Eu ainda te espero, sabe.
Ainda te procuro nas minhas notificações assim que eu acordo.
Ainda comparo os outros com você e eles sempre perdem.
Ainda te uso como referência mental quando preciso distrair meu corpo.
Ainda te amo, mesmo que você não acredite que tenha sido amor.

Me pergunto como teria sido se eu não tivesse baixado as minhas defesas e te mostrado os meus medos naquele dia.
É absurdo que meu maior erro tenha sido me mostrar vulnerável para quem me fazia sentir segura.

ABSURDO.

Eu acreditei que podia te mostrar isso. Acreditei que você faria bom uso dessa informação.
E aí, como bom canceriano que é, usou isso contra mim.
Quem foi que inventou que esse signo é o meu oposto complementar, hein?
Dizem que no Mercúrio retrógrado os ex reaparecem.
Hoje encerra mais um período de Mercúrio retrógrado e você não reapareceu.

Eu esperei por isso.
Preparei vários discursos, desde "eu te odeio, nunca mais apareça" até "finalmente vamos viver nossa história de amor".
Obviamente, isso é bem incompatível com a minha fé e visão de mundo.
Também é incompatível com o que os outros esperam de mim, caso você reaparecesse.
Mas nós não seguimos padrões, né?
Desde o início foi tudo meio fora do normal.
E talvez seja isso que me prenda a você até hoje.

As memórias de nós dormindo juntos, você com o nariz grudado no meu pescoço de madrugada; eu juro que eu queria esquecer.
Como que a pessoa que me fez sentir que eu ainda sei amar é a mesma pessoa que me faz querer voltar no tempo e apagar esse acontecimento?

Se eu não tivesse aceitado a sua solicitação, se eu não tivesse conversado e caído no seu papinho, se eu não tivesse ido te encontrar, se o abraço não tivesse encaixado, se o beijo não tivesse sido gostoso, se o sexo não tivesse sido impecável... são tantos "ses".

Eu acreditei em você, acreditei em nós.
Acreditei que finalmente eu iria viver o meu romance água com açúcar, aquele tipo que é bem sem graça aos olhos dos outros de tão calmo que é, mas só nós sabemos quão bom é.

Se você quiser, eu ainda quero.
Talvez eu queira pra sempre.
Talvez eu te espere pra sempre.

Não sei.

Se eu fosse você, não arriscaria e voltava logo.

Vem!

Se vier, venha pra ficar!
Ocupa teu lugar, ocupa meu corpo.
Me faz tua, se faz único.
Me faz morrer em teus braços, me ressuscita e me deixa viver do teu amor.
Me devora, me possua, me desvenda.
Me despe e me veste com teu corpo.
Me tira pra dançar. Me tira o ar.
Vem!
Vem pra ficar, pra me amar.
Me faz sonhar, suar, delirar.
Me usa, me abusa, me encanta.
Vem, fica e me habita!

Tudo

Aos poucos, com o passar dos anos, nós conseguimos enxergar, finalmente, do que somos feitos.
Por muito tempo, acreditei que fosse inteira tristeza, toda dor.
Já falei pro mundo inteiro ouvir que em mim só tinha amor.
Até meu excesso de vírgulas foi algo que acreditei me definir.
As palavras então, também tiveram a sua fase.
Não que eu seja volúvel, só tinha dificuldade de me definir.
A cada hora, algo me faltava.
Sentir essas faltas me corroía por dentro.
Eu não entendia. Mesmo. Era impossível saber o que eu precisava.
Hoje eu sei. Eu queria tudo. Quero tudo.
Tudo que me couber, que me for de direito.
Tudo que eu conquistar com os meus próprios esforços.
Não admito que me tirem nada. Nem mesmo os meus sorrisos.
Não admito que me façam acreditar em algo e simplesmente não cumpram.
Eu brigo por isso. Brigo por tudo.
Porque sou feita de vontades inteiras.
Sou feita de pedaços inteiros.
Migalhas à quem for feito de migalhas; à mim, não.
À mim, tudo.
Nem mesmo o meu silêncio cala as minhas necessidades. Tem outras formas de expressar.
É só querer ver. Nem todo mundo quer.
Hoje eu sei do que sou feita.
Sou feita dos meus sonhos, dos meus amores, dos meus inimigos, das minhas dores, da tristeza absurda que me acompanha, sou feita dos meus pesadelos, dos medos, das vontades.
Sou inteira.
Feita de tudo.
Feita de mim mesma, literal e figurativamente.
 
 

Te deixo ir

Com lágrimas nos olhos e coração em pedaços; um abraço apertado.
Um silêncio necessário.
Te beijo como beijei no dia que cedi aos teus encantos e à tua conversa ensaiada.
Viajo na memória e sinto saudade dos planos que fizemos enquanto recuperávamos o fôlego perdido de tanto nos amar. Planos nunca realizados.
Te deixo ir, mas vai agora e leva junto toda essa esperança, tão falsa, tão mágica, que você plantou em mim.
Devolve meus beijos, meus sonhos, a vontade de viver que você tirou de mim quando decidiu ir.
Pode ir, eu ficarei bem.
Serão 3 ou 4 noites sem dormir, algumas semanas até eu reaprender a caminhar sozinha, mais algum tempo até me acostumar com a ideia de que o nosso ‘para sempre’ durou bem menos do que eu supus que duraria.
Acho que a vida tem dessas coisas, desses encontros e desencontros, essa coisa das pessoas entrarem na vida da gente e quererem sair no dia seguinte, como se nada tivesse acontecido.
Não que eu esteja preparada, nem quero me preparar pra algo tão absurdo, mas é como se eu esperasse.
É por isso que te deixo ir, sem delongas, sem pormenores, sem querer saber o que te leva de mim. 
Te deixo ir. Pra que alguém possa vir. E ficar.  

20 de abril

Terça-feira, 20 de abril.
Um dia como outro qualquer.
Exceto pelo fato da mala no canto da sala, arrumada no silêncio da madrugada.

Chovia muito. Lá fora e dentro de mim.
Eu era uma tempestade.

Andava com passos apressados, sem olhar pra trás pra não correr o risco de querer voltar, deixava a chuva me molhar pra disfarçar minha maquiagem borrada pelo choro.
Não sabia o que estava fazendo.
Nunca tive certezas na minha vida, nunca cultivei conhecimentos exatos por achar que a vida muda o tempo todo, e os fatos também.

A vida, sempre generosa, deixou que eu escolhesse.
Eu, ingrata e inocente, escolhi o caminho mais difícil só pra provar minha capacidade.
Escolhi ir embora. Desistir.
E pra quem diz que desistir  é mais fácil, acredite, não é.
A dor de não saber como seria se eu tivesse ficado e lutado, a dor de saber que não há caminho de volta e, sobretudo, o peso da minha consciência por conta da minha covardia. Por ter juntado meus trapinhos e meu orgulho ferido e fugido daquele caos, na calada da noite, sem me despedir, sem avisar.
Isso tudo é pior do que qualquer coisa que já desejaram à mim, é como se eu sobrevivesse apenas, perambulando num mundo do qual deixei de fazer parte quando me afastei daquela vidinha chata e sem futuro.
Você? Dormia, certamente.
Nem imaginava meus planos e mesmo que te contassem, não acreditaria.
Tão confiante, tão crente de mim e minha remissão, enquanto eu, tão egoísta, partia.
Se tivesse me despedido, depois de secar tuas lágrimas e engolir as minhas, prometeria falsamente, voltar. Voltar pra te buscar e finalmente, vivermos nossos sonhos.
Então preferi assim. Sem mentiras, lágrimas e despedidas.
E quando você soubesse que fui embora sem te levar, mais uma vez, me odiaria por me amar tanto a ponto de acreditar em mim e esperar minha volta, outra vez.
Naquele dia, eu andava com tanta certeza, com postura de quem sabia o que era certo mesmo sentindo o coração acelerado, pedindo por socorro, pedindo pra eu voltar.
Continuei.  Não voltei e não vou voltar.